O Last Planner System (LPS) é um método de planejamento de obra em que quem executa o serviço se compromete, toda semana, apenas com o que está liberado para fazer. O cronograma geral continua existindo. O LPS acrescenta três camadas abaixo dele: o look ahead, que remove restrições com antecedência; o plano semanal, que registra compromissos; e o PPC, que mede quanto desses compromissos foi cumprido.
Este guia mostra como implantar o LPS em uma obra real: os níveis do método, como tratar restrições, como medir o PPC, o que costuma dar errado e como manter a rotina viva depois das primeiras semanas.
O que é o Last Planner System?
O Last Planner System foi desenvolvido por Glenn Ballard e Gregory Howell nos anos 1990 e é um dos pilares do Lean Construction. O nome vem dos "últimos planejadores": mestres, encarregados e empreiteiros, as pessoas que decidem na prática o que será executado em cada dia.
A premissa é simples: o plano só é confiável quando quem executa participa dele e quando nenhuma atividade entra na semana sem estar liberada. Um cronograma montado só no escritório diz o que deveria acontecer. O LPS registra o que pode acontecer e o que vai acontecer.
O problema que o LPS resolve: a obra recebe um cronograma e descobre na véspera que falta projeto, material ou frente liberada. O serviço não acontece, o empreiteiro fica parado e o atraso só aparece no relatório do mês seguinte.
Os 5 níveis de planejamento do LPS
1. Cronograma geral (master schedule)
O cronograma da obra inteira, normalmente no MS Project ou no Primavera, com marcos contratuais e caminho crítico. Ele define o que deve ser feito e até quando.
2. Planejamento por fases (phase scheduling)
Cada grande etapa (estrutura, vedação, instalações, acabamento) é detalhada com as equipes que vão executá-la, de trás para frente a partir do marco. É aqui que se acertam as passagens entre empreiteiros.
3. Look ahead (planejamento de médio prazo)
Uma janela móvel, geralmente de 4 a 6 semanas, em que cada atividade é examinada para descobrir o que a impede de começar. O objetivo do look ahead não é reprogramar, e sim remover restrições antes que elas cheguem à semana de execução.
4. Plano semanal (weekly work plan)
Na reunião semanal, cada responsável se compromete com tarefas específicas para a semana seguinte. Só entra no plano o que está liberado. Cada tarefa tem um responsável com nome.
5. Alinhamento diário
Uma conversa curta no início do dia, de 10 a 15 minutos, para ajustar o plano e tratar o imprevisto antes que ele vire perda. Não é obrigatório em toda obra, mas ajuda muito quando há várias frentes ao mesmo tempo.
Restrições: as nove condições para uma atividade começar
Uma atividade só está pronta para entrar na semana quando as condições abaixo estão resolvidas. Se uma delas está pendente, a atividade fica no look ahead, com responsável e data para resolver.
- Projeto: revisão liberada para execução, sem pendência de compatibilização.
- Material: comprado, entregue e disponível no local.
- Mão de obra: equipe dimensionada e mobilizada.
- Equipamento: disponível e em condição de uso.
- Serviço anterior: concluído e liberado pela qualidade.
- Área: frente livre, sem interferência de outra equipe.
- Aprovação do cliente: decisões e escolhas que dependem dele já tomadas.
- Segurança: proteções, permissões e treinamentos em dia.
- Clima: condição compatível com o serviço, quando ele é externo.
A regra que sustenta o método: restrição sem responsável e sem data não está sendo tratada. Ela só está anotada.
PPC: o indicador do LPS
O PPC (Percentual de Planos Concluídos) mede quantas tarefas comprometidas no plano semanal foram concluídas de fato. Uma tarefa conta só se terminou inteira. Feita pela metade, não conta.
Exemplo: o plano da semana tinha 25 tarefas comprometidas. Foram concluídas 19. PPC = 19 ÷ 25 = 76%. As 6 tarefas que não terminaram precisam de uma causa registrada.
O PPC não mede produtividade nem avanço físico. Ele mede a confiabilidade do plano: se a obra cumpre o que promete na semana. Uma obra com PPC baixo e constante tem um problema de planejamento, não de execução. Uma obra com PPC subindo semana a semana está aprendendo a planejar.
Causas de não cumprimento
Toda tarefa não concluída recebe uma causa. As mais comuns:
- material não entregue;
- serviço anterior não liberou a frente;
- falta de equipe;
- projeto incompleto ou alterado;
- interferência de outra frente;
- decisão do cliente ou da diretoria atrasada;
- clima.
O valor está na repetição. Se "material não entregue" aparece em três semanas seguidas, o problema está em suprimentos, e a discussão sai do canteiro para quem pode resolver.
Passo a passo para implantar o LPS na obra
Semanas 1 e 2: preparação
- Apresente o método a engenheiros, mestres, encarregados e empreiteiros. Explique o que muda para cada um.
- Confira se o cronograma geral está atualizado e se reflete a obra.
- Defina quem conduz a reunião semanal e quem mantém o look ahead.
Semana 3: primeiro look ahead
- Reúna engenharia, produção e os principais fornecedores.
- Abra as próximas 4 a 6 semanas e passe cada atividade pelas nove condições.
- Dê responsável e data a cada restrição encontrada.
Semana 4: primeiro plano semanal
- Na reunião, cada responsável se compromete só com o que está liberado.
- Escreva as tarefas de forma verificável: "alvenaria dos apartamentos 301 a 303", e não "alvenaria do 3º andar".
- Registre o plano onde todos possam consultar.
Semana 5: primeira medição de PPC
- Antes de planejar a nova semana, meça o PPC da anterior.
- Registre a causa de cada tarefa não concluída.
- Leve as causas repetidas para quem pode removê-las.
Da semana 6 em diante: rotina
O ciclo se repete: look ahead, plano semanal, PPC e causas. É normal o PPC começar baixo. O que importa nas primeiras semanas é a tendência e a disciplina da reunião.
Erros comuns na implantação
1. Colocar no plano o que não está liberado
Se o material não chegou ou o projeto não foi liberado, a tarefa não entra na semana. Incluir "para pressionar" derruba o PPC e tira a credibilidade do plano.
2. Tarefas genéricas
"Fazer instalações do 4º pavimento" não pode ser verificado no fim da semana. A tarefa precisa de local, serviço e quantidade.
3. Restrições sem responsável
A lista de restrições cresce, ninguém cobra e o look ahead vira uma lista de desculpas. Cada restrição precisa de um nome e de uma data.
4. Não medir o PPC toda semana
Sem medição não há aprendizado. Uma semana pulada vira duas, e a rotina morre.
5. LPS separado do cronograma geral
Quando o plano semanal vive em post-it e o cronograma vive no MS Project, os dois se afastam. Em poucas semanas a diretoria olha um cronograma que não conversa com o que a obra está fazendo.
Ferramentas: do quadro ao app de campo
O LPS funciona com quadro branco, post-its e planilha. Para começar, é suficiente. O problema aparece depois: alguém precisa transcrever o quadro, consolidar o PPC, cobrar as restrições e levar o avanço ao cronograma. Quando essa pessoa falta, a rotina morre, e é por isso que muitas implantações não passam do segundo mês.
Ao escolher uma ferramenta, confira três pontos: se o campo consegue apontar em poucos minutos, inclusive sem sinal; se a ferramenta lê e atualiza o cronograma geral, em vez de criar um segundo cronograma; e se existe alguém responsável por conduzir a reunião e cobrar as restrições.
MENSURA Schedule Update. É o app de campo que a MENSURA usa para operar o Last Planner junto com a equipe da obra. O encarregado aponta o avanço no celular, inclusive sem sinal. Cada atividade passa pelo checklist das nove condições, o look ahead e as restrições ficam com responsável e prazo, o plano semanal fecha o PPC com as causas e o texto do RDO sai pronto. O app lê e grava no arquivo do MS Project, a partir da revisão vigente publicada pelo planejador. Conheça o Schedule Update.
LPS na MENSURA
Na MENSURA, o Last Planner faz parte do planejamento executivo de obras. Nossa atuação inclui:
- Diagnóstico inicial: avaliamos o cronograma e a rotina de planejamento da obra.
- Condução da rotina: conduzimos a reunião semanal, cobramos as restrições e fechamos o PPC com as causas até a equipe ganhar ritmo.
- Cronograma conectado: o avanço do campo volta ao MS Project, e a diretoria enxerga o mesmo plano que a obra executa.
- Linha de balanço: em obras com repetição (pavimentos, unidades, casas), combinamos o LPS com a linha de balanço.
Quer testar o Last Planner na sua obra?
Começamos por um piloto de 6 semanas em uma obra, com critérios de sucesso combinados antes. A MENSURA implanta o app e conduz a rotina semanal.
Conversar sobre um pilotoPerguntas frequentes
O que é LPS na construção civil?
LPS é a sigla de Last Planner System, um método de planejamento do Lean Construction em que quem executa o serviço se compromete toda semana só com o que está liberado. O cumprimento é medido pelo PPC.
O que é PPC no Last Planner?
PPC é o Percentual de Planos Concluídos: tarefas concluídas dividido pelas tarefas comprometidas no plano semanal. Ele mede a confiabilidade do planejamento, não a produtividade.
Qual a diferença entre look ahead e plano semanal?
O look ahead olha de 4 a 6 semanas à frente para remover restrições. O plano semanal registra o compromisso da próxima semana, só com atividades já liberadas.
O Last Planner substitui o MS Project?
Não. O cronograma geral continua no MS Project ou no Primavera. O LPS trabalha abaixo dele, e o ideal é que o avanço apurado no plano semanal volte ao cronograma geral.
Quanto tempo leva para implantar o LPS?
A primeira medição de PPC acontece em cerca de cinco semanas, seguindo o passo a passo acima. A rotina costuma se firmar nos dois meses seguintes, desde que a reunião semanal não seja interrompida.
Sobre o autor: artigo da equipe técnica da MENSURA Engenharia, especializada em planejamento, controle de cronograma e Lean Construction. Publicado em dezembro de 2025 e atualizado em outubro de 2026.
Fontes e referências
- Lean Construction Institute — Last Planner System
- Ballard, G. The Last Planner System of Production Control. Tese de doutorado, University of Birmingham, 2000.